O caixão foi baixando lentamente. Choros com soluços quebravam o silêncio. O coveiro era um velho simpático. Muitos enterros em suas mãos. O padre fez a última benção. Naquela noite ainda celebraria um casamento. Crianças corriam pelo gramado. Não sabiam ao certo a dor que aquela cena causava em algumas pessoas presentes.
Sentada ela observava o caixão descendo. Trinta e quatro anos conviveu com ele. Se conheceram numa festa de fim de ano da empresa. Ele estava bêbado e ela vestia uma calça amarela. Ele esbarrou nela. Pediu desculpas. Ela o achou engraçado, pois na empresa parecia ser bem quieto. Depois trocaram telefones. Depois ficaram trinta e quatro anos casados.
Nunca imaginou que presenciaria aquela cena. Não é fácil enterrar um companheiro. Passaram tempo suficiente para saber que se amavam. Houve momentos de brigas. Mas a cama sempre resolvia isso. Não que sexo fosse algo muito importante pra eles. Mas que resolvia, resolvia.
Um dia ele se queixou de dor no peito. Mas nunca mais tocou no assunto. Dois anos depois dessa queixa veio o resultado da dor. Um problema no coração.
Um dia acordou mais cedo que ela. Colocou a água no fogo e foi cagar. Ela achou estranho o apito da chaleira não parar. Levantou e viu que ele não estava na cozinha. O procurou lá fora. Ele sempre ia fumar enquanto a água esquentava. Não o achou. Viu que a porta do banheiro estava aberta. Entrou de mansinho e viu ele sentado do vaso sanitário. Ele estava imóvel. Sua cabeça estava encostada no box. O box era ao lado do vaso. Ele estava pálido e frio. Morto.
Ela ficou parada, olhando pra ele. Como isso podia estar acontecendo? Depois ficou pensando que ele nunca cagava antes de tomar café.
(Marcio Rocha)
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