segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para pensar

Grande texto de Lígia Martins de Almeida, publicado no Observatório da Imprensa (25/01/2011). Essa histórinha de igreja querendo dar pitacos no Estado é histórico. Mas o povo, esse mesmo povo que morde e assopra, tem que entender que são coisas diferentes (Estado e igreja). Não há como o Estado se desenvolver tendo que a toda hora dar explicações para a igreja. Ou você acha que o Vaticano está se importando com as vítimas de catástrofes naturais? Deixo meus comentários para depois. Vamos ao texto de Lígia.

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Igreja pede explicações ao Estado
Por Ligia Martins de Almeida em 25/1/2011
Como se não bastassem as mortes na região serrana do Rio de Janeiro e as brigas entre seus principais aliados – PMDB e PT –, a presidente Dilma Rousseff agora vai ter que lidar com os questionamentos da igreja católica. Empossado como prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, o arcebispo de Brasília, Dom João Braz de Avis, cobrou uma definição da presidente em entrevista publicada na Folha de S.Paulo (19/1/2011):
"Não temos uma ideia clara de quem é Dilma do ponto de vista religioso. Ela precisa explicar melhor as suas convicções religiosas para que o diálogo possa progredir. O que sabemos é que Dilma mostrou flexibilidade com relação a temas importantes para a igreja. Mas também sabemos que políticos fazem isso: durante a campanha, é uma coisa e, na prática, o caminho às vezes é outro. Eu espero que as posições dela se aproximem das posições da igreja. Para isso, precisamos conhecer melhor o que pensa a Dilma presidente em relação a certos temas. Não só o aborto, que teve destaque na disputa eleitoral, mas também quanto ao PNDH-3 [Plano Nacional de Direitos Humanos], que traz posições contundentíssimas para a igreja. Há aspectos muito bonitos com relação à questão social, mas temos aborto, homossexualismo, um monte de coisa que precisamos ver como vai ficar."Enquanto o religioso espera para ver como as coisas vão ficar, os jornais poderiam esclarecer que questões como legalização do aborto, união de homossexuais e outros temas tão caros à igreja independem da exclusiva vontade da Presidência da República. Qualquer modificação na lei referente ao aborto ou à união legal de homossexuais, por exemplo, passa por aprovação do Congresso Nacional.
Deveriaa imprensa esclarecer também que as atitudes da presidente – ou de qualquer presidente deste país – dizem respeito apenas ao Estado, assim como as decisões da igreja (católica ou qualquer outra) dizem respeito apenas aos seus seguidores. Como disse o próprio cardeal em sua entrevista, "a separação entre igreja e Estado foi uma conquista e representa uma grande vantagem democrática em relação ao passado, quando havia a imposição da religião sobre o Estado".
O papel de cada umA entrevista de Dom João de Braz Aviz acabou repercutindo no jornal concorrente. Em artigo publicado domingo (23/1) no Estado de S. Paulo, Débora Diniz discute o tema sob o título "Quem tem medo da laicidade?":
"De minha parte, não preciso conhecer a fé religiosa de nossa presidente para acreditar na democracia. Ainda diferente de d. João, estou certa de que, se o ex-presidente Lula se apresentou como homem de Estado, a atual presidente poderá ir além: melhor será se somente conhecermos a mulher de Estado. Se a ela for conveniente expor suas crenças privadas em matéria religiosa, que esse seja um fato indiferente à vida democrática. Mas, honestamente, preferiria que Dilma fosse não apenas a primeira mulher presidente, mas principalmente, aquela que atualizasse o dispositivo da laicidade do Estado brasileiro... Não há incompatibilidade moral entre a mulher de fé e a mulher de Estado. Só elegemos a mulher de Estado."Enquanto a presidente da República procura organizar seu governo e enfrentar as catástrofes (naturais e políticas), melhor seria se o cardeal católico e todos os outros líderes religiosos do país se unissem em oração ou trabalhassem efetivamente para ajudar as vítimas das enchentes por esse Brasil afora. Cabe à imprensa esclarecer aos leitores que cada um tem seu papel na democracia, noticiando, comentando e, sempre que necessário, destacando que Estado e igreja são coisas diferentes.
Se cada um – Estado, igreja e imprensa – fizer a sua parte, a democracia só tem a ganhar.

fonte:  http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=626JDB001

Recolhendo

No elevador a música – como sempre – era melancólica. Mas pelo menos estava gelado. Lá fora todos suados e fedendo. O maldito verão mostrava seu cartão de visitas. Nem trepar conseguia. Sua asma não deixava. Como o nariz dela ficava ressecado com o ar-condicionado, preferiu o ventilador. Mas o ventilador lembrava aqueles filmes americanos ambientados na África: muito lento.
                Cerveja não adiantava mais. Seus cubas, sempre com muito gelo, deixavam ele ainda mais angustiado. Nada era capaz de matar a sua sede. Até mesmo a água, parecia quente. Sugeriu a ida a algum rio, pois praia não era compatível com seus ganhos. Ela, com cara de bunda, disse apenas um “não tô afim”.
                Foi vivendo assim, suado, fedido e sem companhia. Até que a loira gostosa que trabalha na padaria em frente ao escritório se ofereceu para um passeio. Logo ela, tão homenageada em longas punhetas dando bola pra ele? Claro que ele aceitou.
                A loira disse que estava afim de curtir uma praia regada a cerveja e algo mais. Mas ele logo pensou no baixo salário e também na cerveja, que o faz suar ainda mais.
                Disse não. Era melhor assim. Viver com a mulher com a mesma cara de bunda de sempre, longe da cerveja e na companhia de demoradas punhetas.

(Marcio Rocha)