segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Recolhendo

No elevador a música – como sempre – era melancólica. Mas pelo menos estava gelado. Lá fora todos suados e fedendo. O maldito verão mostrava seu cartão de visitas. Nem trepar conseguia. Sua asma não deixava. Como o nariz dela ficava ressecado com o ar-condicionado, preferiu o ventilador. Mas o ventilador lembrava aqueles filmes americanos ambientados na África: muito lento.
                Cerveja não adiantava mais. Seus cubas, sempre com muito gelo, deixavam ele ainda mais angustiado. Nada era capaz de matar a sua sede. Até mesmo a água, parecia quente. Sugeriu a ida a algum rio, pois praia não era compatível com seus ganhos. Ela, com cara de bunda, disse apenas um “não tô afim”.
                Foi vivendo assim, suado, fedido e sem companhia. Até que a loira gostosa que trabalha na padaria em frente ao escritório se ofereceu para um passeio. Logo ela, tão homenageada em longas punhetas dando bola pra ele? Claro que ele aceitou.
                A loira disse que estava afim de curtir uma praia regada a cerveja e algo mais. Mas ele logo pensou no baixo salário e também na cerveja, que o faz suar ainda mais.
                Disse não. Era melhor assim. Viver com a mulher com a mesma cara de bunda de sempre, longe da cerveja e na companhia de demoradas punhetas.

(Marcio Rocha)

Um comentário:

  1. Ispiração minha, lendo teu excelente texto fiz minha primeira produção de 2011. rsrsrsrsrs. Beijo, te amo.

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